Conferência | As relações amordaçadas

Prof. Doutor Manuel Matos

RESUMO

A pandemia de aglomerados surpreendeu quem até aí fingiu não ver realidades evidentes.

Será esta pandemia a expressão de todos os limites ultrapassados? Os governos do mundo impõem distância social, à laia de reposição dos limites. E em que ponto estamos quanto à distância afectiva e emocional provocada pela aproximação forçada num confinamento sentido como uma prisão domiciliária colectiva?

A privação de diferentes manifestações relacionais está a dar origem a neo-realidades e a problemas de saúde mental com inesperadas expressões psicopatológicas resultantes da cura que se pretende implementar.

Que resposta poderá dar a psicanálise relacional enquanto ciência da relação, do inconsciente, da subjectividade que se rege mais pela métrica das representações do que pelo metro padrão?

Que possibilidades de exercício e com que remodelações do “Setting”?

São possíveis remodelações do Setting na intervenção clínica com crianças, ou com adolescentes?

O factual, o concreto, a evidência inegável exige a compreensão das novas situações traumáticas.

Em que medida esta realidade afecta a nossa escuta?

E qual a tarimba necessária para que o psicanalista mantenha a boa distância que lhe permita trabalhar as dinâmicas transferenciais que articulem passado, muitas vezes traumático, presente igualmente traumático, na complexidade da relação psicanalítica?

Que espaço fica para as interpretações transformantes?

No desenvolvimento psíquico passamos da interacção à relação. A realidade que estamos a viver obriga-nos a passar da relação à interacção.

Somos “interaccionistas” ou psicanalistas?

Usamos ou recusamos máscara nas sessões?

Máscara de prevenção, mas que pode significar rejeição. A máscara esconde as emoções primitivas oculta as expressões faciais que denotam afectos implicados na relação. Significa atitude defensiva, distanciamento e até retirada relacional.
A pandemia amordaça a psicanálise relacional. Procura-se no psicanalista, a proximidade, acolhimento e a relação e deparamo-nos com um “psicoinfecciologista”; neologismo que somos obrigados a criar para descrever uma neo-realidade.

Sabendo nós da importância do brincar no desenvolvimento psíquico da criança o que pensar das medidas que, ignorando isto, entendem que as crianças não devem brincar umas com as outras nem trocar brinquedos entre elas, ensinados a não tocar e a não partilhar?

Que consequências, sobretudo nas crianças que já têm tendência para a retirada relacional?

Saímos do confinamento, retomamos a vida no condicional e em “Relações Amordaçadas”, mas prevalece a pandemia do medo, fora e dentro de casa.
Cá fora estamos artilhados de máscara e viseira, e dentro de casa a proximidade física continuada promoveu aproximação ou afastamento emocional e afectivo entre os familiares?

No dia a dia aconselha-se a distanciamento higiénico, o vírus é uma realidade fantasmática. Diz-se do vírus o que se dizia de Deus: está no céu e na terra e em toda a parte; por isso fique em casa e opte pelo teletrabalho. Da presença concreta passámos à presença virtual.

É possível exercer a psicanálise com sessões não presenciais?

Durante quanto tempo e quais os resultados?

Seremos terapeutas digitais e até quando?

Terapeutas assépticos em consultórios assépticos? Como?

Que equilíbrios e negociações relacionais faremos com os nossos pacientes?

O que podemos pensar deste presente amordaçado e de um futuro antecipado, que não se mostra diferente do presente, a partir da Psicanálise Relacional?

Eis algumas reflexões que podemos discutir em conjunto.

Inscreva-se.

Participe.

Esperamos por si.

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